As Testemunhas de Jeová são um movimento religioso que se originou no final do século XIX, nos Estados Unidos, a partir do trabalho de Charles Taze Russell.
O fundador do que viria a ser as Testemunhas de Jeová foi Charles Taze Russell (1852-1916). Nascido na Pensilvânia, Russell era filho de pais presbiterianos. Por volta dos 18 anos, ele começou a questionar as doutrinas de sua igreja, especialmente a crença no inferno de tormento eterno.
Em 1870, com cerca de 18 anos, Russell formou um pequeno grupo de estudo da Bíblia em Allegheny (hoje parte de Pittsburgh, Pensilvânia), com alguns associados. Este grupo começou a desenvolver interpretações únicas de várias passagens bíblicas, divergindo do cristianismo predominante.
Em julho de 1879, Russell começou a publicar sua própria revista, inicialmente chamada Zion’s Watch Tower and Herald of Christ’s Presence (A Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo), que mais tarde se tornaria a conhecida A Sentinela.
Para apoiar a distribuição de literatura, foi fundada a Sociedade Torre de Vigia de Sião e Tratados (Zion’s Watch Tower Tract Society) em 1881, e registrada legalmente em 15 de dezembro de 1884, com Charles Taze Russell como seu presidente. Essa sociedade é a principal corporação legal por trás das Testemunhas de Jeová até hoje, embora seu nome tenha sido alterado várias vezes.
Embora muitos as considerem uma denominação cristã, suas doutrinas fundamentais as diferenciam significativamente do cristianismo tradicional e evangélico. Embora tanto os Evangélicos quanto as Testemunhas de Jeová se identifiquem como cristãos e usem a Bíblia como sua escritura sagrada, suas doutrinas fundamentais e interpretações bíblicas divergem significativamente. Essas diferenças são tão profundas que muitos teólogos e denominações cristãs tradicionais não consideram as Testemunhas de Jeová parte do cristianismo ortodoxo. Compreender essas distinções é crucial para qualquer análise comparativa.
Charles Taze Russell
Evangélicos: Acreditam na doutrina da Trindade. Para eles, Deus é um único Ser que subsiste eternamente em três Pessoas co-iguais e co-eternas: Deus Pai, Deus Filho (Jesus Cristo) e Deus Espírito Santo. Cada uma dessas Pessoas é plenamente Deus, mas não são três deuses, e sim um só Deus em três pessoas distintas. Esta doutrina é vista como essencial para entender a plenitude da divindade de Jesus e a atuação do Espírito Santo. Textos como Mateus 28:19 (a Grande Comissão) e 2 Coríntios 13:14 (bênção apostólica) são frequentemente citados para apoiar a distinção e divindade das três Pessoas.
Testemunhas de Jeová: Rejeitam veementemente a Trindade, considerando-a uma doutrina de origem pagã, sem respaldo bíblico. Para eles, Jeová (o nome divino que eles enfatizam, baseado no tetragrama YHWH) é o único Deus Todo-Poderoso e supremo. Jesus Cristo é o Filho de Jeová, a primeira e mais importante de todas as Suas criações, um ser poderoso, mas não o próprio Deus. O Espírito Santo é visto como a força ativa impessoal de Deus, e não como uma pessoa divina. A adoração é direcionada exclusivamente a Jeová.
Evangélicos: Jesus Cristo é considerado plenamente Deus e plenamente homem. Ele é a segunda Pessoa da Trindade, co-igual e co-eterno com o Pai. Sua encarnação, vida perfeita, morte expiatória na cruz e ressurreição são o cerne da fé. Ele é o Salvador, o Senhor e o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Versículos como João 1:1 (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”) e Colossenses 2:9 (“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”) são fundamentais.
Testemunhas de Jeová: Jesus Cristo é o Filho de Deus, a primeira criação de Jeová, o “unigênito Filho de Deus” (João 3:16) e o Arcanjo Miguel em sua existência pré-humana. Ele é poderoso, mas subordinado a Jeová, e não é Deus no mesmo sentido. Sua morte na cruz é um “resgate” que abriu o caminho para a vida eterna, mas eles não o veem como a encarnação do próprio Deus. Adorar a Jesus seria uma forma de idolatria, pois a adoração pertence apenas a Jeová.
Evangélicos: O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Trindade, plenamente Deus. Ele tem atributos pessoais (intelecto, emoções, vontade) e realiza obras divinas, como a regeneração, santificação, capacitação e guia dos crentes. Ele é o Consolador e o Agente da revelação divina. Atos 5:3-4 (onde mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus) é um texto crucial para sua divindade.
Testemunhas de Jeová: O Espírito Santo é a força ativa, impessoal, de Jeová, Seu “sopro” ou “energia”. Eles não o consideram uma pessoa divina, e, portanto, não lhe atribuem personalidade, nem o adoram. É o poder de Deus em ação, usado para cumprir Sua vontade.
Evangélicos: A salvação é obtida pela graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo (Efésios 2:8-9). As boas obras são vistas como o resultado da salvação e da fé verdadeira, não como um meio para alcançá-la. A vida eterna é a comunhão eterna com Deus no céu para todos os crentes, em uma ressurreição corporal glorificada.
Testemunhas de Jeová: A salvação depende da fé no sacrifício de Jesus, mas também da obediência aos mandamentos de Jeová e à direção da organização (o Corpo Governante). Eles distinguem duas esperanças de vida eterna:
Os “Ungidos” (144.000): Um grupo seleto que irá para o céu para reinar com Cristo.
As “Outras Ovelhas”: A grande maioria dos fiéis viverá para sempre em um Paraíso terrestre restaurado, após o Armagedom. A sobrevivência ao Armagedom e a obediência contínua são cruciais para a salvação e a vida eterna em qualquer das esperanças.
Evangélicos: A Bíblia (66 livros do Cânon Protestante) é a Palavra de Deus inspirada, inerrante e infalível, sendo a única e suprema autoridade para toda a fé e prática (Sola Scriptura). A interpretação é guiada pelo Espírito Santo, com ênfase na exegese gramatical-histórica.
Testemunhas de Jeová: Embora afirmem que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, sua interpretação é rigidamente controlada e guiada pelas publicações e pela orientação do Corpo Governante da organização, visto como o “escravo fiel e discreto”. Eles utilizam sua própria tradução, a “Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas”, que é criticada por estudiosos por apresentar traduções em passagens-chave que se alinham às suas doutrinas exclusivas (ex: a divindade de Cristo).
Evangélicos: Possuem diversas visões sobre o fim dos tempos (pré-milenismo, pós-milenismo, amilenismo), mas geralmente creem no retorno literal e visível de Jesus Cristo, na ressurreição corporal de todos os mortos, em um julgamento final e na existência de um inferno de tormento eterno para os impenitentes e vida eterna no céu para os salvos.
Testemunhas de Jeová: Acreditam que Jesus Cristo começou a reinar no céu invisivelmente em 1914. O Armagedom é visto como uma batalha iminente que resultará na destruição dos governos humanos e dos ímpios, estabelecendo o Reino de Deus na Terra. Não creem em um inferno de tormento eterno; em vez disso, os ímpios são sujeitos à aniquilação (deixam de existir).
Evangélicos: Acreditam na imortalidade da alma (ou espírito) após a morte física. A alma continua a existir conscientemente e vai para o céu ou para o inferno, aguardando a ressurreição corporal no fim dos tempos.
Testemunhas de Jeová: Ensinam a doutrina do “sono da alma”. Para eles, a alma não é imortal e a morte é um estado de completa inconsciência, onde a pessoa “dorme” até uma possível ressurreição. A esperança para os mortos é uma ressurreição física para a vida no Paraíso terrestre.
Evangélicos: Participam ativamente da vida cívica (votam, servem em cargos públicos), comemoram feriados tradicionais como Natal e Páscoa, e não possuem restrições teológicas a transfusões de sangue (pelo contrário, apoiam).
Testemunhas de Jeová: Mantêm uma estrita neutralidade política (não votam, não servem no exército, não saúdam bandeiras nacionais), não comemoram feriados que consideram ter origens pagãs ou não bíblicas (Natal, Páscoa, aniversários), e recusam transfusões de sangue baseados em sua interpretação de passagens bíblicas sobre a santidade do sangue.
A história das Testemunhas de Jeová é marcada por diversas datas e eventos que moldaram suas doutrinas e estrutura:
1870: Charles Taze Russell forma um grupo de estudo bíblico.
1879: Russell começa a publicar a revista Zion’s Watch Tower and Herald of Christ’s Presence.
1881: Fundação da Sociedade Torre de Vigia de Sião e Tratados.
1884: A Sociedade Torre de Vigia é legalmente incorporada, com Charles Taze Russell como presidente.
1909: Os escritórios principais da Sociedade são transferidos para Brooklyn, Nova Iorque, que se tornaria a sede mundial do movimento.
1914: Ano significativo nas profecias de Russell. Ele esperava que este ano marcasse o “tempo dos gentios” e o início do governo do Reino de Deus nos céus, bem como a “volta invisível” de Cristo. Embora suas expectativas iniciais para o fim do mundo não se concretizassem como previsto, a data de 1914 permaneceu central na cronologia das Testemunhas de Jeová como o ano em que Jesus iniciou seu reinado celestial.
1916: Morte de Charles Taze Russell.
1917: Joseph Franklin Rutherford sucede Russell na presidência da Sociedade Torre de Vigia. Sob a liderança de Rutherford, ocorreram mudanças doutrinais e organizacionais significativas, distanciando ainda mais o grupo do movimento original dos “Estudantes da Bíblia”.
1919: Rutherford lança a revista The Golden Age, que mais tarde se tornaria a revista Despertai!, outra publicação importante das Testemunhas de Jeová.
1931: O nome do grupo é oficialmente alterado para “Testemunhas de Jeová”, baseado em Isaías 43:10: “Vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR, e o meu servo, a quem escolhi”.
1942: Nathan Homer Knorr sucede Rutherford na presidência. Sob Knorr, houve um forte impulso para a obra de pregação de casa em casa e o desenvolvimento de escolas para treinamento missionário, como a Escola Bíblica de Gileade.
1945: A proibição de transfusões de sangue é oficializada como doutrina.
1975: Outra data esperada por muitos Testemunhas de Jeová para o Armagedom, baseada em cálculos cronológicos. O não cumprimento da profecia gerou desapontamento e alguns deixaram a organização.
1976: O Corpo Governante assume uma posição mais centralizada e colegiada na liderança da organização, em vez de depender de um único presidente.
Hoje, as Testemunhas de Jeová são uma organização mundial, com milhões de adeptos em mais de 240 países. Elas são supervisionadas pelo Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, um grupo de anciãos (líderes) que reside na sede mundial em Warwick, Nova Iorque (anteriormente Brooklyn). A Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados (com suas várias corporações legais, como a da Pensilvânia e a de Nova Iorque) é o braço legal e editorial do movimento.
O foco principal de suas atividades é a pregação das “boas novas do Reino de Deus” de porta em porta, através de estudos bíblicos e da distribuição de suas publicações, como as revistas A Sentinela e Despertai!, e a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas.
Testemunha de Jeová (TJ): Boa noite a todos! É uma alegria poder compartilhar a verdade sobre o único Deus verdadeiro, Jeová. Como Testemunhas de Jeová, nós nos esforçamos para honrar o nome de Deus e seguir o exemplo de Jesus, Seu Filho. Cremos que Jeová é o Soberano Universal, o Criador de todas as coisas, e que ele não é parte de uma Trindade. A Bíblia nos mostra que Jesus é o Filho de Deus, a primeira criação de Jeová, e que o Espírito Santo é a força ativa de Deus, não uma pessoa. Isso é vital para entender quem Deus realmente é.
Pastor Evangélico: Boa noite. É um privilégio debater sobre as verdades da fé cristã. Para nós, evangélicos, a Trindade é a essência da natureza de Deus, revelada nas Escrituras. Cremos em um único Deus que subsiste eternamente em três Pessoas co-iguais e co-eternas: Deus Pai, Deus Filho (Jesus Cristo) e Deus Espírito Santo. Jesus Cristo não é uma criação; Ele é o próprio Deus encarnado, como João 1:1 e 14 afirmam: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne.” Negar a divindade de Jesus e do Espírito Santo é esvaziar o sacrifício de Cristo e o poder do Espírito Santo em nossas vidas.
Testemunha de Jeová (TJ): Pastor, a palavra “Trindade” sequer aparece na Bíblia. Essa doutrina é um desenvolvimento posterior, influenciado por filosofias pagãs, e não uma verdade bíblica. Jesus mesmo disse em João 14:28: “O Pai é maior do que eu”. Se ele fosse Deus Todo-Poderoso, como poderia o Pai ser maior? Jesus sempre orou ao Pai e o adorou como seu Deus. Ninguém na Bíblia adorou uma Trindade. Nosso foco é em Jeová, o Deus único, e em seu Filho, Jesus, o Messias.
Pastor Evangélico: A ausência da palavra “Trindade” não significa a ausência do conceito. A Bíblia revela progressivamente essa verdade. O batismo em Mateus 28:19 é “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, colocando as três Pessoas em igualdade divina. Quanto a João 14:28, Jesus fala como o Filho encarnado, submetido ao Pai em Sua missão terrena, mas Sua divindade é clara em outras passagens. Ele aceitou adoração, perdoou pecados, e Isaías 9:6 o chama de “Deus Forte, Pai da Eternidade”. O Espírito Santo é um Consolador pessoal e divino (João 14:16-17), não uma força impessoal. Se Jesus não é Deus, nosso resgate do pecado é insuficiente, e nossa fé carece de um fundamento divino.
Testemunha de Jeová (TJ): A Bíblia enfatiza a adoração exclusiva a Jeová. Em João 4:23-24, Jesus diz que “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”. Adorar Jesus seria desviar a adoração de Jeová. Além disso, a salvação vem pela obediência à vontade de Deus e pela fé no resgate de Jesus, que abriu o caminho para a vida eterna no Paraíso terrestre para a maioria das “outras ovelhas”, e não um destino celestial para todos. A ideia de inferno de fogo é contrária ao amor de Jeová; os ímpios simplesmente deixam de existir.
Pastor Evangélico: A salvação é unicamente pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo (Efésios 2:8-9). As boas obras são resultado, não condição para a salvação. Jesus não é um caminho ao Pai, Ele é o caminho, a verdade e a vida (João 14:6). E sim, o destino dos impenitentes é a condenação eterna, não a aniquilação, como Jesus ensinou sobre o “fogo eterno” (Mateus 25:41). E quanto à adoração, Jesus é digno de adoração porque Ele é Deus. Os anjos o adoraram, e a Bíblia diz que “todos devem honrar o Filho, assim como honram o Pai” (João 5:23). Negar isso é negar a própria Bíblia.
Testemunha de Jeová (TJ): Mas e a ressurreição? A Bíblia ensina que “os mortos não sabem coisa nenhuma” (Eclesiastes 9:5), indicando que a alma não é imortal. A morte é um sono profundo. Jeová tem o poder de ressuscitar as pessoas, mas a maioria ressuscitará para uma vida perfeita na Terra. Nossa esperança é um Paraíso restaurado aqui, sob o Reino de Deus, que começou a reinar em 1914. Essa é a verdadeira esperança do evangelho, diferente da crença de que todos vão para o céu.
Pastor Evangélico: A doutrina da imortalidade da alma e da consciência pós-morte é clara nas Escrituras. Jesus falou do rico e Lázaro (Lucas 16:19-31) que estavam conscientes após a morte. Paulo desejava “partir e estar com Cristo” (Filipenses 1:23), o que pressupõe consciência imediata. O retorno de Cristo será visível e literal, não invisível em 1914. E a promessa da vida eterna é com Deus no céu, para aqueles que creem em Jesus como Senhor e Salvador. Nosso foco não é uma utopia terrena, mas a pátria celestial que Cristo nos preparou.
Testemunha de Jeová (TJ): Por fim, nossa obediência se manifesta em seguir a Bíblia em tudo, inclusive mantendo neutralidade política, não participando em guerras, e não aceitando transfusões de sangue (baseados em Atos 15:28-29 sobre se abster de sangue). Isso demonstra nossa lealdade exclusiva a Jeová e ao seu Reino. Diferente de muitos, nós nos esforçamos para viver uma vida em plena harmonia com os princípios bíblicos, aguardando o Reino de Deus que transformará a Terra em um Paraíso.
Pastor Evangélico: A Bíblia nos chama a ser bons cidadãos e a orar pelas autoridades (Romanos 13:1; 1 Timóteo 2:1-2), não a uma neutralidade total que nos afasta da sociedade. Quanto às transfusões de sangue, a proibição em Atos 15 referia-se ao consumo de sangue como alimento em um contexto cultural específico, não à proibição de um procedimento médico para salvar vidas. Amar ao próximo, como Jesus ensinou, implica em buscar o bem-estar e a vida. Nossas ações devem ser guiadas pelo amor, pela graça e pela liberdade em Cristo, sempre sob a autoridade da Palavra de Deus interpretada em seu contexto completo.