A Congregação Cristã no Brasil (CCB) é uma igreja cristã com características e doutrinas bastante distintas que a separam de muitas denominações evangélicas tradicionais. Fundada no Brasil no início do século XX, ela se destaca por uma interpretação rigorosa de certos aspectos bíblicos e por uma estrutura organizacional e litúrgica muito particular. Embora a CCB se veja como a continuidade da “verdadeira Igreja de Cristo” e se baseie na Bíblia, muitos evangélicos a classificam como um grupo com doutrinas que se desviam do que é considerado o cristianismo ortodoxo.
A Congregação Cristã no Brasil foi fundada por Louis Francescon (1866-1964), um imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1910. Francescon era um ex-presbiteriano que, nos Estados Unidos, havia tido contato com o movimento pentecostal nascente, especialmente com a Missão de Fé Apostólica da Rua Azusa, em Los Angeles. Ele acreditava que Deus o havia chamado para pregar o evangelho e estabelecer igrejas em outros países, com ênfase na experiência do batismo no Espírito Santo e nos dons espirituais.
1910: Louis Francescon chega ao Brasil (São Paulo e depois Paraná) e começa a pregar para comunidades de imigrantes italianos. Ele batiza os primeiros convertidos por imersão e organiza as primeiras congregações. Inicialmente, o movimento era conhecido como “Congregação Cristã” e, posteriormente, adotou “no Brasil” para se diferenciar de outras congregações no mundo.
1918: A primeira “casa de oração” própria é construída em São Paulo.
1930s-1940s: A igreja passa por um período de consolidação e crescimento, com a expansão de suas comunidades pelo Brasil.
Após a Morte de Francescon (1964): A liderança da CCB continua sendo exercida por um corpo de anciãos, com grande ênfase na tradição e nas normas estabelecidas desde o início.
A CCB possui algumas características que a distinguem marcadamente de outras igrejas evangélicas:
Liderança de Anciãos: A igreja é governada por um corpo de Anciãos que não são pastores remunerados, mas homens eleitos pela comunidade e que trabalham secularmente. Não há um pastor presidente ou um clero profissional hierárquico como na maioria das denominações.
Ausência de Cursos Teológicos Formais: A CCB não possui seminários ou faculdades de teologia. O treinamento para o ministério (ancião, diácono, cooperador de ofício) ocorre por meio de experiência prática, aprendizado e discernimento espiritual da própria comunidade.
Uniformidade Litúrgica: A adoração é padronizada e segue um modelo simples, sem sermões predefinidos ou louvores contemporâneos. Os hinos são cantados do Hinário nº 5, geralmente acompanhados por uma orquestra. A pregação é feita por qualquer ancião que se sinta movido pelo Espírito no momento do culto, sem um tema pré-determinado.
Não Uso de Dízimo Compulsório: A contribuição financeira é voluntária e feita através de “ofertas” em envelopes específicos, sem a pregação do dízimo como uma obrigação.
Neutralidade em Relação a Outras Religiões: A CCB geralmente não se envolve em intercâmbio ecumênico com outras denominações cristãs ou religiões.
Proselitismo Não Ativo: Embora recebam visitantes em seus cultos, não realizam proselitismo ativo ou evangelismo de porta em porta como outras igrejas. O crescimento ocorre mais por testemunho pessoal e convite para conhecer os cultos.
Para a perspectiva evangélica tradicional, algumas doutrinas e práticas da CCB levantam questões e são motivo de divergência:
Suficiência da Bíblia e a “Revelação Contínua”:
Visão CCB: Acreditam na Bíblia como a Palavra de Deus. No entanto, a pregação é baseada na “revelação atual” ou “sentimento do Espírito”, que guia o ancião no momento do culto, em vez de uma exegese sistemática da Escritura. Isso pode levar a uma interpretação menos padronizada e mais dependente da experiência individual do pregador.
Visão Evangélica: Aderem à Sola Scriptura: a Bíblia é a única e suficiente fonte de autoridade divina para fé e prática. A interpretação da Bíblia deve ser feita de forma sistemática e gramatical-histórica, com o auxílio do Espírito Santo, mas sem depender de uma “revelação” pessoal que possa desviar do texto ou ser vista como superior a ele.
Doutrina da Salvação e o Papel do Batismo:
Visão CCB: Enfatizam a importância da obediência, santidade e perseverança. O batismo por imersão é visto como um rito fundamental e necessário para a salvação, a ser realizado somente em “nome de Jesus”, em vez da fórmula trinitária (Pai, Filho e Espírito Santo) ensinada por Jesus em Mateus 28:19.
Visão Evangélica: A salvação é pela graça mediante a fé em Jesus Cristo, e o batismo é um símbolo externo dessa fé e da nova vida, não um requisito para a salvação (Efésios 2:8-9). A maioria esmagadora das denominações evangélicas batiza em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, seguindo a ordem de Jesus.
Natureza da Igreja e a “Verdadeira Doutrina”:
Visão CCB: Acreditam ser a “verdadeira Igreja de Cristo” restaurada por Deus nos últimos dias através de Francescon, detentora da “verdadeira doutrina” revelada. Frequentemente, há uma percepção de que a “salvação” está intrinsecamente ligada à pertença à CCB e à sua doutrina.
Visão Evangélica: A Igreja de Cristo é universal e invisível, composta por todos os que verdadeiramente creem em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, independentemente da denominação. Embora existam diferentes tradições, a unidade fundamental reside na fé em Cristo e na doutrina ortodoxa.
Dons Espirituais e Manifestações:
Visão CCB: Acreditam nos dons espirituais, especialmente no dom de línguas e profecia, que são vistos como evidência da presença do Espírito Santo.
Visão Evangélica: (Pentecostais e Carismáticos concordam na atualidade dos dons; outros (cessacionistas) creem que alguns dons, como línguas e profecia, cessaram após a era apostólica). Contudo, mesmo entre aqueles que creem na atualidade dos dons, há diferenças na forma de sua manifestação e na sua regulamentação.
Avisos sobre a “Carne” e o Mundo:
Visão CCB: Há uma forte ênfase na renúncia ao mundo e à “carne”, o que se manifesta em costumes mais conservadores (vestuário, recreação, etc.).
Visão Evangélica: Também valorizam a santidade e a renúncia ao pecado, mas a aplicação desses princípios pode variar muito entre as denominações, com algumas mais conservadoras e outras mais adaptadas culturalmente, sem comprometer os princípios bíblicos.
A Congregação Cristã no Brasil representa uma faceta única do cristianismo no país. Para os evangélicos, os pontos de divergência residem principalmente na interpretação da suficiência da Bíblia, no papel do batismo e sua fórmula, na compreensão da salvação, e na visão exclusiva da CCB como a “verdadeira doutrina”. Essas diferenças são consideradas significativas o suficiente para que a CCB seja vista como distinta do corpo principal do protestantismo e do cristianismo evangélico.
Ancião da CCB: Boa noite a todos, e que a paz de Deus esteja com vocês! É uma honra poder falar sobre a nossa fé na Congregação Cristã no Brasil. Nós buscamos seguir os ensinamentos de Jesus Cristo e dos apóstolos, como nos foi revelado no início do século passado através do irmão Louis Francescon. Para nós, a Bíblia é a Palavra de Deus, e a verdadeira doutrina é aquela que é revelada pelo Espírito Santo nos nossos cultos, com simplicidade e sem doutrinas humanas. Acreditamos no batismo por imersão em nome de Jesus e na importância da santidade e da obediência para agradar a Deus.
Pastor Evangélico: Boa noite, e que a graça e a paz do nosso Senhor Jesus Cristo estejam com todos! É um privilégio dialogar com o irmão. Como evangélicos, também cremos que a Bíblia é a inerrante e suficiente Palavra de Deus, e que ela é a nossa única autoridade final em fé e prática. A salvação, para nós, é um dom gratuito da graça de Deus, recebido pela fé em Jesus Cristo, e não por nossas obras ou ritos. Nosso desejo é que todos conheçam o Jesus Cristo que se revelou plenamente nas Escrituras.
Ancião da CCB: Pastor, respeitamos a Bíblia, mas a forma de entendimento vem pela revelação do Espírito Santo no momento do culto. Não dependemos de estudos teológicos complexos ou de temas predefinidos, pois cremos que o Espírito Santo guia o pregador para a mensagem que é necessária à congregação naquele momento. Além disso, o batismo é feito “em nome de Jesus”, conforme Atos dos Apóstolos, e não na fórmula trinitária. Essa é a forma correta e original da Igreja Primitiva.
Pastor Evangélico: Irmão, a Bíblia de fato é inspirada pelo Espírito Santo, mas ela deve ser estudada e interpretada em seu contexto histórico e gramatical. O Espírito Santo ilumina a mente, mas Ele não contradiz nem sobrepõe a Palavra escrita. A ideia de uma “revelação atual” sem a devida base exegética pode levar a interpretações subjetivas e a desvios doutrinários. E sobre o batismo, a grande comissão de Jesus em Mateus 28:19 é inequívoca: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Essa é a fórmula universal da igreja, recebida do próprio Senhor.
Ancião da CCB: Nós cremos que a Igreja verdadeira tem a doutrina pura e que Deus a restaurou nos últimos dias. Nossa santidade e obediência aos mandamentos são cruciais para a salvação. Não basta crer; é preciso viver uma vida que agrade a Deus, afastando-se do mundo e de seus costumes. O nosso modo de vida, a simplicidade nos cultos e a separação do mundo são testemunho da nossa fé.
Pastor Evangélico: Irmão, concordo plenamente que a santidade e a obediência são frutos de uma fé verdadeira, mas elas não são o meio para a salvação. A Bíblia ensina que “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). A verdadeira Igreja de Cristo é composta por todos os que confessam Jesus como Senhor e Salvador, independentemente da denominação. Jesus orou para que fôssemos um, e limitar a “verdadeira doutrina” a um único grupo pode ser um obstáculo para a unidade do corpo de Cristo.
Ancião da CCB: A nossa simplicidade no culto e a ausência de um clero remunerado são para que o foco esteja em Deus e não em homens. Nossos anciãos e diáconos trabalham secularmente, e as ofertas são voluntárias, para que não haja ganância ou idolatria. É uma prática que vem dos apóstolos.
Pastor Evangélico: A simplicidade no culto é uma virtude, e o sustento voluntário da obra é bíblico. No entanto, a Bíblia também estabelece o princípio do obreiro ser digno do seu salário (1 Timóteo 5:18), reconhecendo que aqueles que se dedicam integralmente ao ministério precisam ser sustentados para que possam se dedicar à Palavra e à oração. O importante é a transparência e a integridade, não a ausência de um ministério dedicado. Afinal, a complexidade da teologia e o cuidado pastoral exigem dedicação e preparo, não é mesmo?