As religiões de matriz africana no Brasil são complexas e diversas, resultado da fusão de crenças e práticas trazidas pelos povos escravizados da África, com influências indígenas e europeias (especialmente do catolicismo popular e, mais tarde, do espiritismo kardecista). É fundamental entender que elas não são um bloco monolítico e possuem distinções claras entre si. O termo “Macumba”, em particular, é frequentemente usado de forma pejorativa e equivocada para se referir a todas elas, quando na verdade tem origens e significados específicos.
Historicamente, “Macumba” não é uma religião, mas um termo que tem múltiplos significados e usos, muitas vezes carregado de preconceito:
Instrumento Musical: Originalmente, “macumba” é o nome de um instrumento musical de percussão de origem africana, semelhante a um reco-reco, utilizado em rituais. Um “macumbeiro” seria, literalmente, quem toca esse instrumento.
Árvore: Também pode se referir a um tipo de árvore africana.
Termo Pejorativo/Genérico: No Brasil, o termo se popularizou de forma genérica e depreciativa para designar qualquer ritual ou culto afro-brasileiro, especialmente aqueles que envolvem oferendas ou “despachos”. É um sinônimo preconceituoso para religiões como Candomblé e Umbanda, especialmente no Rio de Janeiro. É crucial evitar o uso de “macumba” como um termo guarda-chuva para essas religiões, pois isso desrespeita sua complexidade e aprofunda o estigma.
Origem: A Umbanda é considerada uma religião genuinamente brasileira, surgida no início do século XX, por volta de 1908, através de Zélio Fernandino de Moraes, no Rio de Janeiro. Sua fundação é marcada por uma revelação na Federação Espírita de Niterói.
Fundamentos: É uma religião sincrética, combinando elementos do catolicismo popular, espiritismo kardecista, religiões africanas (culto aos Orixás e entidades) e traços indígenas (como o culto aos Caboclos). A Umbanda é monoteísta, crendo em um Deus único (Olorum, Zambi ou um Deus cristão, dependendo da linha), e vê os Orixás como manifestações ou irradiações desse Deus supremo, e não como deuses independentes.
Práticas: Os rituais também ocorrem em terreiros, com cânticos (geralmente em português), defumação, orações e a incorporação de entidades espirituais (guias) em médiuns. As entidades mais conhecidas são os Caboclos (espíritos de indígenas, associados à força da natureza e cura), Pretos-Velhos (espíritos de antigos escravos, associados à sabedoria e humildade), Crianças/Erês (associados à alegria e pureza), Baianos, Marinheiros, entre outros. Exus e Pombagiras são entidades que trabalham na “esquerda” e têm funções de guardiões, mensageiros e atuam em demandas mais densas. A Umbanda enfatiza a caridade, a lei do karma e a evolução espiritual.
Sincretismo: O sincretismo é uma característica central da Umbanda, com orixás frequentemente associados a santos católicos (ex: Iemanjá com Nossa Senhora da Conceição, Ogum com São Jorge, Oxalá com Jesus Cristo).
Origem: O Candomblé é uma religião de matriz africana que foi trazida e recriada no Brasil pelos povos escravizados, principalmente das nações iorubá (Nagô), jeje (Fon) e banto (Angola, Congo). É uma das religiões afro-brasileiras mais antigas e que busca manter a maior fidelidade possível às tradições africanas de suas nações de origem.
Fundamentos: É uma religião politeísta (ou mais precisamente, henoteísta, pois há um Deus supremo distante, Olorum ou Zambi, e uma hierarquia de divindades), que cultua os Orixás (no caso da nação Nagô), Voduns (nação Jeje) ou Inkices (nação Banto). Essas divindades são forças da natureza e ancestrais divinizados, cada um com suas características, cores, alimentos e rituais específicos.
Práticas: Os rituais são complexos, realizados em terreiros (casas de Candomblé), e envolvem cânticos (em idiomas africanos como iorubá, jeje, kimbundu), danças, toques de atabaques, oferendas (incluindo sacrifício animal em algumas nações) e o fenômeno de possessão/transe (chamado de “incorporação” por não-candomblecistas) onde os orixás se manifestam nos “filhos de santo”. A comunicação com os orixás ocorre principalmente através do jogo de búzios.
Sincretismo: No Candomblé mais ortodoxo, o sincretismo com santos católicos é menos aceito ou visto como uma estratégia histórica de camuflagem, e não como uma fusão doutrinária.
Origem: A Quimbanda tem raízes nas práticas mágico-religiosas bantas e muitas vezes é vista como um desdobramento ou uma vertente mais “à esquerda” da Umbanda, embora alguns a considerem uma religião distinta com sua própria identidade e ritos. Ela também se desenvolveu no Brasil, com influências africanas e europeias.
Fundamentos: Diferente da Umbanda “branca” que foca na caridade e na “luz”, a Quimbanda é associada à atuação com Exus e Pombagiras em uma linha de trabalho mais focada em demandas materiais, proteção e, por vezes, em trabalhos de ataque ou defesa. A Quimbanda não adere à dicotomia cristã de “bem” e “mal” de forma simplista; Exus e Pombagiras são vistos como forças que podem operar para o positivo ou o negativo, dependendo da intenção e do propósito do trabalho.
Práticas: Seus rituais também envolvem a incorporação de Exus e Pombagiras, oferendas (comumente em encruzilhadas, cemitérios), uso de velas, bebidas alcoólicas e fumo. A Quimbanda é conhecida por trabalhos de amarração, abertura de caminhos, prosperidade e, em alguns casos, trabalhos de “magia negra” ou “demanda”, o que a torna a mais estigmatizada das religiões afro-brasileiras.
Sincretismo: Pode haver sincretismo, mas a tônica é a valorização das energias dos Exus e Pombagiras em sua forma mais “pura” ou africana, sem a mesma preocupação em associá-los a santos católicos.
Os dados mais recentes do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE em junho de 2025, mostram um crescimento notável das religiões de matriz africana:
Percentual da População: O número de pessoas que se declararam praticantes de Umbanda e Candomblé (o IBGE os agrupa nesta categoria) triplicou entre 2010 e 2022, passando de 0,3% para 1,0% da população brasileira. Esse aumento de 0,7 ponto percentual representa um crescimento de mais de 300%.
Número de Adeptos: Em números absolutos, isso significa que cerca de 2 milhões de brasileiros se identificam com a Umbanda ou o Candomblé.
Distribuição Regional: A maior concentração de umbandistas e candomblecistas está na Região Sul (1,6%) e Sudeste (1,4%). O Rio de Janeiro, em particular, se destaca como um dos estados com maior proporção de afro-religiosos (1,61%). O Rio Grande do Sul (0,94%) e São Paulo (0,42%) também têm concentrações relevantes.
Gênero: As mulheres são a maioria entre os adeptos de religiões de matriz africana, representando 56,7% do total.
Faixa Etária: O grupo de idade predominante é o de adultos entre 30 e 39 anos (21,6%).
Uma das descobertas mais notáveis do Censo 2022 é a composição racial dos fiéis de Umbanda e Candomblé:
Maioria Branca: Contrariando estereótipos históricos, a maioria dos praticantes dessas religiões hoje se declara branca (42,7%).
Pardos: Representam 33,1% dos adeptos.
Pretos: Representam 17,1% dos adeptos.
Essa mudança indica uma maior diversidade na adesão a essas religiões, embora o racismo religioso e a intolerância ainda sejam desafios significativos. A pesquisa sugere que o aumento da autodeclaração pode ser reflexo de campanhas de combate à intolerância religiosa e de uma maior liberdade em se identificar publicamente com essas crenças.
O crescimento das religiões afro-brasileiras reflete vários fatores:
Combate à Intolerância: Campanhas e maior visibilidade sobre o racismo religioso podem ter encorajado mais pessoas a se autodeclararem. Historicamente, muitos praticantes de religiões afro-brasileiras se declaravam católicos ou espíritas para evitar preconceitos e perseguições.
Busca por Espiritualidade: O cenário religioso brasileiro é dinâmico, e muitas pessoas buscam espiritualidades que ofereçam sentido, pertencimento e conexão com o divino de formas diferentes das religiões majoritárias.
Resistência Cultural: As religiões de matriz africana são também um espaço de resistência e preservação da cultura e identidade afro-brasileira.
O IBGE agrupa Candomblé e Umbanda em uma única categoria em suas divulgações mais amplas. Dados específicos sobre a Quimbanda são mais difíceis de obter isoladamente nos censos oficiais, pois seus praticantes podem se declarar como “outras religiões de matriz africana” ou mesmo como umbandistas, dada a proximidade e sobreposição de algumas práticas.
No entanto, é fundamental reiterar as distinções que abordamos anteriormente para uma compreensão mais aprofundada:
Candomblé: Foca na manutenção das tradições africanas mais puras, culto aos Orixás (divindades), uso de línguas africanas nos rituais e menos sincretismo com o catolicismo.
Umbanda: Religião genuinamente brasileira, com forte sincretismo (Orixás, santos católicos, elementos espíritas e indígenas), foco na caridade e incorporação de “entidades de luz” (Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças).
Quimbanda: Muitas vezes vista como uma vertente da Umbanda, ou uma religião distinta, que lida com a “linha de esquerda”, focando na atuação de Exus e Pombagiras, sem necessariamente a conotação de “bem” ou “mal” do cristianismo, e com trabalhos mais direcionados para demandas terrenas, proteção e, por vezes, magia.
Esses dados do Censo 2022 reforçam a crescente visibilidade e reconhecimento das religiões afro-brasileiras no Brasil, apesar dos desafios e da necessidade de um maior combate ao preconceito.
Evangelizar pessoas de religiões afro-brasileiras como Candomblé, Umbanda e Quimbanda exige sensibilidade, respeito e uma compreensão genuína de suas crenças, sem jamais ferir os direitos humanos ou praticar a intolerância. O objetivo é apresentar a fé cristã de forma clara e amorosa, convidando ao diálogo, e não à imposição ou ao confronto.
Aqui estão algumas dicas para um evangelismo leve e respeitoso:
Estude as Religiões Afro-Brasileiras (com Respeito): Antes de abordar, procure entender as doutrinas e práticas fundamentais do Candomblé, Umbanda e Quimbanda. Isso não significa concordar, mas sim saber o que a pessoa crê. Compreender a complexidade dos Orixás, entidades (Caboclos, Pretos-Velhos, Exus, Pombagiras), o papel do terreiro e a importância da ancestralidade. Isso evita estereótipos e permite um diálogo mais relevante.
Reconheça a Busca Espiritual: Muitas pessoas nessas religiões têm uma busca espiritual profunda, um senso de comunidade e uma conexão com o transcendente. Reconheça isso como um ponto de partida para o diálogo, e não como algo a ser “desmontado”.
Construa Relacionamentos: O evangelismo eficaz raramente acontece em um único encontro. Construa pontes de amizade e confiança. Mostre interesse genuíno pela pessoa, não apenas pela sua religião.
Ouça Mais do que Fale: Faça perguntas abertas sobre suas crenças, suas experiências e o que buscam na espiritualidade. Ouça atentamente, sem interromper ou julgar. Permita que a pessoa se sinta ouvida e valorizada. Isso cria um ambiente de respeito mútuo.
Evite o Confronto Direto: Em vez de “refutar” ou “atacar” suas crenças, apresente o ponto de vista cristão de forma positiva e convidativa. O objetivo não é “vencer um debate”, mas compartilhar uma boa notícia.
Apresente Jesus Cristo: O cerne da mensagem cristã é Jesus Cristo. Fale sobre quem Ele é para você: o Deus encarnado, o Salvador, Aquele que oferece perdão completo e vida eterna.
Exemplo de abordagem: “No cristianismo, cremos que Jesus não é apenas um guia, mas o próprio Deus que veio até nós. Ele fez algo único para nos reconciliar com Deus Pai.”
Graça e Perdão vs. Mérito e Carma: Explique a salvação pela graça, através da fé, contrastando-a com a ideia de acúmulo de méritos, evolução em múltiplas vidas ou equilíbrio de carma.
Exemplo: “A Bíblia nos ensina que não podemos ‘ganhar’ a salvação. Deus, em seu grande amor, nos oferece o perdão completo e a vida eterna como um presente, por meio do que Jesus fez na cruz.”
Um Só Mediador: Destaque a doutrina de Jesus como o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5). Isso pode ser um ponto de contraste com a busca por intercessão de orixás ou entidades.
Exemplo: “No cristianismo, temos acesso direto a Deus Pai por meio de Jesus. Ele é nosso único intercessor e não precisamos de outros caminhos.”
O Amor de Deus e Sua Justiça: Aborde a justiça e o amor de Deus na perspectiva bíblica. Explique como o sacrifício de Jesus na cruz reconcilia esses dois atributos divinos.
Exemplo: “Deus é santo e justo, e o pecado nos separa dEle. Mas por Seu amor infinito, Ele enviou Jesus para pagar o preço que nós não poderíamos pagar, oferecendo-nos uma ponte de volta para Ele.”
Não Comece com Versículos de Condenação: Evite iniciar o diálogo com passagens que podem ser interpretadas como um ataque direto às suas crenças (ex: Deuteronômio 18 sobre necromancia). Isso criará barreiras imediatamente.
Mostre o Amor e a Provisão de Deus na Bíblia: Comece com passagens que falam do amor de Deus, da criação, da pessoa de Jesus e da oferta de salvação.
Explique o Contexto: Ao usar versículos, seja paciente para explicar o contexto e o significado para um público que pode não ter a mesma familiaridade com a Bíblia ou pode ter interpretações diferentes.
Evite Desrespeitar Símbolos e Práticas: Não critique, zombe ou desdenhe de seus símbolos, rituais, entidades ou orixás. Isso é desrespeitoso e ofensivo. O evangelismo não é sobre humilhar, mas sobre iluminar.
Foque na Mensagem Positiva: Em vez de focar no que eles “não devem” fazer, foque no que Jesus oferece: paz, perdão, esperança, propósito e relacionamento com o Criador.
Ore Constantemente: A oração é a ferramenta mais poderosa no evangelismo. Ore pela pessoa, pela sua abertura espiritual e para que o Espírito Santo prepare o coração dela para receber a verdade.
Deixe o Espírito Santo Convencer: Lembre-se que a conversão é obra do Espírito Santo, não de sua capacidade de argumentar. Sua parte é plantar a semente, regar e orar.
Lembre-se: A meta é ser um embaixador de Cristo (2 Coríntios 5:20), apresentando o evangelho com mansidão e temor (1 Pedro 3:15). Respeitar os direitos humanos de cada indivíduo à sua fé é inegociável, e o verdadeiro amor cristão se manifesta na forma como nos relacionamos com aqueles que creem de forma diferente.