A Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) é um movimento religioso com raízes no século XIX, nos Estados Unidos, que se distingue por doutrinas e práticas específicas que, embora partilhem algumas crenças com o cristianismo evangélico, também apresentam diferenças significativas. A principal razão pela qual alguns setores evangélicos a classificam como uma “seita” (no sentido teológico de desvio doutrinário fundamental do cristianismo ortodoxo) reside principalmente em suas doutrinas sobre a autoridade profética de Ellen G. White, a natureza da salvação (legalismo), o sábado como dia de guarda, a doutrina do juízo investigativo, e a aniquilação da alma.
A IASD surgiu do movimento millerita nos Estados Unidos, que esperava o retorno de Jesus Cristo em 1844. O pregador batista William Miller (1782-1849) foi o principal líder desse movimento, interpretando profecias bíblicas, especialmente Daniel 8:14, para calcular essa data.
Quando Jesus não retornou em 1844 (evento conhecido como o “Grande Desapontamento”), muitos milleritas abandonaram a fé. No entanto, um pequeno grupo começou a reexaminar as escrituras para entender o que havia ocorrido. Desse reestudo, surgiram as bases da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Os principais fundadores desse grupo pós-desapontamento incluem:
Ellen G. White (1827-1915): Considerada a figura mais influente. Desde jovem, ela alegava ter recebido visões e sonhos proféticos. Seus escritos e visões se tornaram fundamentais para a doutrina e organização da IASD.
James White (1821-1881): Marido de Ellen G. White, foi um líder proeminente, editor e organizador.
Joseph Bates (1792-1872): Ex-capitão da marinha, foi o principal defensor da guarda do sábado.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia foi formalmente organizada em 1863, em Battle Creek, Michigan.
1831-1844: O Movimento Millerita, com a pregação de William Miller sobre a segunda vinda de Cristo.
22 de outubro de 1844: O Grande Desapontamento. A data esperada para o retorno de Cristo. Após a não ocorrência, alguns milleritas, incluindo Ellen G. White, interpretaram que Cristo havia entrado no Santo dos Santos celestial para iniciar uma nova fase de Sua obra redentora, o Juízo Investigativo.
1840s-1850s: Desenvolvimento das doutrinas distintivas sobre o sábado (influenciado por Joseph Bates) e a imortalidade condicional/aniquilacionismo. Ellen G. White começa a ter visões que confirmam e expandem essas doutrinas.
1863: Fundação oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
1866: Fundação do Western Health Reform Institute (que mais tarde se tornaria o Sanatório de Battle Creek), marcando o início da ênfase adventista na saúde e no estilo de vida.
1915: Morte de Ellen G. White. Seus escritos continuam a ser uma fonte de autoridade e guia para a igreja.
Para a perspectiva evangélica, várias doutrinas adventistas são motivo de preocupação e, por vezes, de classificação como “seita” (no sentido teológico):
A Autoridade dos Escritos de Ellen G. White:
Visão Adventista: Ellen G. White é considerada uma profetisa inspirada por Deus, cujos escritos são uma “fonte contínua e inspirada de verdade para a Igreja”. Suas obras (como O Grande Conflito, O Desejado de Todas as Nações) não são colocadas acima da Bíblia, mas são vistas como uma “luz menor para guiar à luz maior” (a Bíblia), fornecendo “instrução autoritativa”. Para muitos adventistas, seus escritos são normativos e interpretativos.
Visão Evangélica: A doutrina evangélica defende a Sola Scriptura, ou seja, a Bíblia como a única Palavra inspirada, inerrante e infalível de Deus, e a autoridade final e suficiente em todas as questões de fé e prática. A inclusão dos escritos de Ellen G. White como uma fonte “inspirada” e “autoritativa” é vista como um comprometimento da suficiência e da primazia da Bíblia, potencialmente elevando-a a um nível semelhante ao da Escritura.
O Sábado como Dia de Guarda (Observância do Sábado):
Visão Adventista: Acreditam que o sábado (do pôr do sol de sexta-feira ao pôr do sol de sábado) é o dia bíblico de guarda para adoração, um memorial perpétuo da criação e um teste de lealdade a Deus. Eles veem a observância do domingo como uma tradição humana introduzida pela Igreja Católica, sem base bíblica, e que será uma “marca da besta” nos últimos dias.
Visão Evangélica: Reconhecem que o sábado foi o dia de descanso e adoração no Antigo Testamento. No entanto, com a Nova Aliança em Cristo, a maioria dos evangélicos entende que o princípio do descanso e addedicação a Deus continua, mas o dia específico foi alterado para o domingo, em celebração à ressurreição de Cristo (Atos 20:7; 1 Coríntios 16:2; Apocalipse 1:10 – “Dia do Senhor”). Eles argumentam que Cristo é o “Senhor do sábado” (Marcos 2:28) e que o legalismo na observância de um dia específico (Colossenses 2:16-17; Romanos 14:5-6) é contrário à liberdade cristã.
A Doutrina do Juízo Investigativo (1844):
Visão Adventista: Em 22 de outubro de 1844, Cristo não voltou à Terra, mas entrou no Santo dos Santos do santuário celestial para iniciar uma fase de Sua obra redentora chamada Juízo Investigativo. Neste juízo, os registros da vida dos professos crentes são examinados para determinar quem é digno de salvação e quem terá seus pecados apagados. Este processo precede a segunda vinda de Cristo.
Visão Evangélica: A maioria dos evangélicos rejeita o conceito de um Juízo Investigativo iniciado em 1844. Acreditam que, no momento da conversão, os pecados do crente são imediatamente perdoados e apagados pelo sangue de Cristo (João 5:24; Romanos 8:1). Não há necessidade de um exame retrospectivo dos pecados dos justos antes do retorno de Cristo. A justificação é um ato instantâneo de Deus pela fé.
Natureza da Alma e Inferno (Aniquilacionismo/Mortalidade da Alma):
Visão Adventista: Acreditam na mortalidade da alma (também conhecido como “sono da alma” ou “aniquilacionismo”). Para eles, a alma não é imortal e, quando uma pessoa morre, ela permanece inconsciente até a ressurreição. Os ímpios, após o juízo final, serão completamente aniquilados (deixarão de existir), em vez de sofrer tormento eterno em um inferno literal.
Visão Evangélica: A maioria dos evangélicos crê na imortalidade da alma. Quando uma pessoa morre, sua alma (ou espírito) vai imediatamente para a presença de Deus (para os salvos) ou para um lugar de tormento (para os perdidos), aguardando a ressurreição corporal e o juízo final. O inferno é entendido como um lugar de tormento consciente e eterno para os que rejeitam a Cristo (Mateus 25:46; Apocalipse 20:10).
Legalismo e Salvação pelas Obras (ênfase na Lei):
Visão Adventista: Embora afirmem a salvação pela graça, a forte ênfase na obediência à lei de Deus (incluindo a guarda do sábado, abstinência de certos alimentos e um estilo de vida específico) é vista por críticos como uma tendência ao legalismo, onde a justificação pode parecer dependente do desempenho humano. A ideia de que os pecados do crente são “apagados” no Juízo Investigativo (dependendo de seu registro) pode ser interpretada como uma salvação condicionada às obras.
Visão Evangélica: A salvação é puramente pela graça mediante a fé em Jesus Cristo, sem o mérito de obras humanas (Efésios 2:8-9; Romanos 3:28). As obras são a evidência da fé verdadeira, mas não contribuem para a justificação ou para a garantia da salvação. O foco está na suficiência do sacrifício de Cristo.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia é um movimento complexo com muitas características semelhantes ao cristianismo tradicional (como a crença na divindade de Cristo, na Trindade [embora com nuances em seu desenvolvimento histórico], na inspiração da Bíblia e na segunda vinda de Jesus). No entanto, as doutrinas específicas mencionadas acima – a autoridade de Ellen G. White, a guarda do sábado, o juízo investigativo e a mortalidade da alma – são os principais pontos de divergência que levam alguns setores evangélicos a questionar se a IASD se encaixa na definição de cristianismo ortodoxo, classificando-a, por vezes, como um grupo “extra-cristão” ou uma “seita” por suas inovações doutrinárias e uma dependência de fontes extrabíblicas de autoridade (Ellen G. White).
Evangélico: Boa noite! Fico feliz em ter esta oportunidade de conversar. Para nós, evangélicos, a salvação é pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo, e o Seu sacrifício na cruz é completo e suficiente para nos justificar. A Bíblia é nossa única autoridade infalível, e a vida cristã é vivida em liberdade em Cristo. Essa é a essência do evangelho que pregamos.
Adventista: Boa noite! É um prazer estar aqui. Nós, adventistas, também cremos que a salvação é pela graça, através de Jesus. Contudo, enfatizamos que a verdadeira fé se manifesta na obediência à lei de Deus, incluindo a guarda do Sábado, que é o dia de descanso e adoração estabelecido por Deus desde a criação e reafirmado nos Dez Mandamentos. Além disso, cremos nos escritos de Ellen G. White como uma luz inspirada que nos guia no entendimento da Palavra.
Evangélico: Entendo sua ênfase na obediência, mas a Bíblia ensina que somos justificados pela fé, e não pelas obras da lei (Romanos 3:28; Efésios 2:8-9). O apóstolo Paulo é claro que Cristo nos libertou do jugo da lei cerimonial, e a guarda de um dia específico (como o sábado) não é uma condição para a salvação ou uma “prova de lealdade” na Nova Aliança, como Colossenses 2:16-17 sugere. E quanto aos escritos de Ellen G. White, a Sola Scriptura significa que a Bíblia é a única fonte de autoridade divina e não precisamos de outra “luz” para nos guiar.
Adventista: Pastor, a fé sem obras é morta (Tiago 2:26). A obediência à lei de Deus é uma resposta natural ao Seu amor e uma evidência de nossa fé verdadeira, não um meio de salvação. Quanto ao sábado, Jesus disse que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la (Mateus 5:17). O sábado foi instituído na criação, antes de qualquer lei cerimonial, e Jesus mesmo o observava. A mudança para o domingo não tem base bíblica, sendo uma tradição posterior. E Ellen G. White não substitui a Bíblia; seus escritos são para nos ajudar a compreender melhor as Escrituras, como uma bússola que aponta para o tesouro.
Evangélico: O cumprimento da lei por Cristo significa que Ele cumpriu todas as suas exigências para nós, tornando-nos justos por Sua justiça, não pela nossa observância. O foco em um dia específico, ou em mandamentos específicos da lei mosaica, pode nos levar a um legalismo que desvia do verdadeiro evangelho da graça. A liberdade que temos em Cristo nos permite adorar em qualquer dia, com o domingo sendo a celebração da ressurreição. E embora reconheçamos o valor de líderes espirituais, a Bíblia adverte contra adicionar qualquer outra “revelação” ou “luz” que possa diminuir a supremacia das Escrituras.
Adventista: Pastor, essa “liberdade” não significa abandonar os mandamentos de Deus. Hebreus 4:9 ainda fala de um “repouso sabático” para o povo de Deus. A obediência ao sábado é um sinal da nossa fidelidade no tempo do fim. E o que dizer do Juízo Investigativo, iniciado em 1844, onde nossos pecados são apagados? Isso é crucial para a purificação do santuário celestial e para a preparação para a volta de Cristo, como revelado em Daniel 8:14. Nossos registros de vida são examinados para que os salvos tenham seus pecados removidos definitivamente.
Evangélico: A Bíblia ensina que nossos pecados são perdoados e apagados no momento em que cremos em Jesus Cristo, pelo Seu sangue derramado na cruz (Atos 10:43; Colossenses 2:13-14). Não há necessidade de um “juízo investigativo” que examine os pecados dos crentes no céu depois de 1844. Isso sugere que a obra de Cristo não foi completa ou que nossa justificação não é definitiva. Quando aceitamos a Cristo, somos declarados justos diante de Deus de uma vez por todas.
Adventista: O Juízo Investigativo não anula a eficácia do sacrifício de Cristo; ele valida a fé daqueles que professam ser de Cristo. É um processo divino para confirmar quem realmente é dEle e para apagar os pecados dos fiéis. Se os pecados não fossem apagados no céu, como poderíamos ter certeza de que estamos prontos para a volta de Jesus? E por fim, acreditamos que os ímpios, no final, serão aniquilados, não torturados eternamente. Isso é mais consistente com o caráter amoroso de Deus.
Evangélico: O amor de Deus é perfeito, mas Ele também é justo. Jesus falou sobre o “fogo eterno” e o “tormento eterno” para os que não o aceitam (Mateus 25:41; Apocalipse 20:10). Isso não é uma aniquilação, mas uma separação eterna de Deus. A ideia de que a alma “dorme” ou é aniquilada também contradiz passagens como Lucas 16 (o rico e Lázaro) e Filipenses 1:23, onde Paulo expressa seu desejo de “partir e estar com Cristo” imediatamente após a morte. A salvação de alma e corpo é um dom completo em Cristo, que nos leva à Sua presença eterna no céu.