A Igreja Adventista do Sétimo Dia

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (A Igreja SUD), popularmente conhecida como Mórmons, é um movimento religioso que se destaca por sua organização missionária e pela notável preparação de seus missionários em abordagens. Fundada nos Estados Unidos no século XIX, ela apresenta um conjunto de crenças e escrituras que a distinguem significativamente do cristianismo evangélico tradicional. Para muitos evangélicos, as doutrinas mórmons se afastam do que é considerado o cristianismo ortodoxo, levando alguns a classificá-la como um culto ou uma nova religião, e não uma vertente do cristianismo.

Origens e Fundadores

O fundador da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi Joseph Smith Jr. (1805-1844). Nascido em Vermont, EUA, Smith relatou ter tido uma série de experiências espirituais que o levaram a estabelecer a nova religião.

  • 1820: Joseph Smith, então com 14 anos, relatou ter tido uma “Primeira Visão”, onde Deus Pai e Jesus Cristo apareceram a ele. Segundo Smith, eles o instruíram a não se juntar a nenhuma das igrejas existentes, pois todas estavam em um estado de “abominação” e não possuíam a plenitude do evangelho. Essa visão é central para a doutrina da “Grande Apostasia”, a crença de que a igreja original de Cristo foi perdida após a morte dos apóstolos, e que a Igreja SUD é uma “restauração” dessa igreja original.

  • 1823: Joseph Smith afirmou ter sido visitado por um anjo chamado Morôni, que lhe revelou a existência de placas de ouro contendo antigos registros de habitantes do continente americano.

  • 1827: Smith teria recuperado essas placas e, com o auxílio de pedras videntes (Urim e Tumim), traduziu o que viria a ser o Livro de Mórmon.

  • 6 de abril de 1830: A Igreja de Cristo (nome original) foi formalmente organizada em Fayette, Nova Iorque, com Joseph Smith como seu primeiro profeta e presidente.

  • Perseguição e Migração: A Igreja enfrentou intensa perseguição desde o início, levando seus membros a migrar diversas vezes (Ohio, Missouri, Illinois). Em 1844, Joseph Smith e seu irmão Hyrum foram martirizados (assassinados) em Carthage, Illinois.

  • Brigham Young e Utah: Após a morte de Smith, Brigham Young (1801-1877) assumiu a liderança e guiou a maioria dos Santos dos Últimos Dias para o Vale do Lago Salgado, no que hoje é Utah, estabelecendo sua sede lá em 1847.

Escrituras Adicionais e Autoridade

Para os Santos dos Últimos Dias, a Bíblia Sagrada é aceita como a Palavra de Deus “desde que esteja traduzida corretamente”. No entanto, ela não é a única, nem a autoridade final. Eles creem em outras escrituras, que são consideradas revelações adicionais e complementares:

  • O Livro de Mórmon: A pedra angular da fé, que eles acreditam ser um registro de antigos habitantes das Américas e contém a plenitude do evangelho de Jesus Cristo, incluindo uma visita de Jesus ressuscitado às Américas. É considerado “outra testemunha de Jesus Cristo”.

  • Doutrina e Convênios: Uma coleção de revelações e declarações inspiradas dadas a Joseph Smith e a profetas posteriores.

  • Pérola de Grande Valor: Inclui o Livro de Moisés, o Livro de Abraão (supostamente traduções de Joseph Smith), uma revisão de Mateus 24 e as Regras de Fé (uma declaração de 13 pontos doutrinários).

A existência e a autoridade dessas escrituras adicionais são um dos pontos mais significativos de divergência com o cristianismo evangélico, que adere à doutrina da Sola Scriptura (a Bíblia como única e suficiente Palavra de Deus).

Doutrinas e Pontos de Divergência com a Visão Evangélica

As principais doutrinas da Igreja SUD, que a distinguem do cristianismo evangélico, incluem:

  1. Natureza de Deus (Trindade):

    • Visão SUD: Acreditam que Deus Pai (Pai Celestial), Jesus Cristo (Seu Filho) e o Espírito Santo são três seres distintos e separados, unidos em propósito, mas não em substância ou essência. Deus Pai é visto como um ser glorificado, com um corpo de carne e ossos (Doutrina e Convênios 130:22). Eles creem que o Pai foi uma vez um homem que progrediu e se tornou Deus.

    • Visão Evangélica: Acreditam na Trindade clássica: um único Deus em três Pessoas co-iguais, co-eternas e consubstanciais (Pai, Filho e Espírito Santo). A natureza de Deus é imaterial e transcendente.

  2. Natureza de Jesus Cristo:

    • Visão SUD: Jesus é o Filho primogênito do Pai Celestial no mundo pré-mortal (um irmão espiritual de todos os humanos). Ele é o Redentor e Salvador, mas não é o Deus Todo-Poderoso no mesmo sentido que o Pai. Sua Expiação é vista como um evento fundamental, mas o conceito de salvação e sua abrangência são diferentes.

    • Visão Evangélica: Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, a segunda Pessoa da Trindade, co-eterno e co-igual com o Pai. Sua morte na cruz é o sacrifício vicário e expiatório que paga integralmente a pena pelos pecados da humanidade.

  3. Apostasia e Restauração:

    • Visão SUD: Acreditam que, após a morte dos apóstolos de Cristo, houve uma “Grande Apostasia”, onde a igreja verdadeira, a autoridade do sacerdócio e a plenitude do evangelho foram perdidas. Joseph Smith foi divinamente chamado para “restaurar” essa igreja original.

    • Visão Evangélica: Reconhecem que houve desvios e corrupções na história da Igreja, mas a igreja verdadeira e o evangelho nunca foram completamente perdidos. A Bíblia continua sendo a guia para a fé e prática. A ideia de uma “restauração” total com a necessidade de novas escrituras é rejeitada.

  4. Salvação e Exaltação:

    • Visão SUD: A salvação é pela graça, mas “depois de tudo o que pudermos fazer” (2 Néfi 25:23, no Livro de Mórmon). A salvação do pecado e da morte é universal através da graça de Cristo, mas a exaltação (alcançar a plena divindade e viver como Deus nos reinos celestiais) requer fé, arrependimento, batismo por imersão por alguém com a autoridade do sacerdócio mórmon, o recebimento do dom do Espírito Santo, obediência aos mandamentos e perseverança até o fim, incluindo ordenanças do templo.

    • Visão Evangélica: A salvação é inteiramente pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo, e é um dom gratuito (Efésios 2:8-9). As boas obras são fruto da salvação, não um pré-requisito ou complemento para obtê-la. A vida eterna é a comunhão com Deus no céu para todos os que creem. A ideia de que humanos podem se tornar “deuses” no mesmo sentido que o Pai é rejeitada.

  5. Batismo pelos Mortos e Ordenanças do Templo:

    • Visão SUD: Realizam batismos vicários (por procuração) e outras ordenanças (como casamento eterno) em seus templos pelos seus antepassados falecidos, para que estes tenham a oportunidade de aceitar o evangelho no mundo espiritual e progredir para a exaltação.

    • Visão Evangélica: Rejeitam a prática de batismo pelos mortos ou qualquer ordenança para os falecidos, baseados em Hebreus 9:27 (“aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo”). A salvação e a oportunidade de arrependimento são nesta vida.

  6. Progressão Eterna (Humanos se tornam Deuses):

    • Visão SUD: Acreditam no princípio da “progressão eterna”, onde os homens e mulheres fiéis podem, através da obediência e das ordenanças do templo, se tornar “deuses” e criar mundos, assim como o Pai Celestial fez.

    • Visão Evangélica: Acreditam que Deus é o único Deus, o Criador incriado. A humanidade é criada à Sua imagem, mas nunca se tornará Deus em sua essência.

Preparação Missionária e Abordagem

Os missionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias são conhecidos por sua disciplina, preparação e abordagem metódica. Eles dedicam tempo significativo ao estudo de suas escrituras e ao treinamento em comunicação. Suas abordagens geralmente são caracterizadas por:

  • Cordialidade e Polidez: São treinados para serem amigáveis, respeitosos e gentis.

  • Foco na Família: Frequentemente enfatizam a importância da família e a promessa de que as famílias podem estar juntas para sempre.

  • O Testemunho Pessoal: Compartilham seu testemunho pessoal de Joseph Smith, do Livro de Mórmon e da Igreja, o que é um pilar de sua fé.

  • Convite à Oração: Muitas vezes convidam as pessoas a orar sobre a veracidade do Livro de Mórmon ou da mensagem.

  • Ensino Estruturado: Geralmente seguem um currículo de aulas que abordam doutrinas fundamentais.

Apesar da cordialidade, as diferenças doutrinárias são profundas e, para a teologia evangélica, essenciais. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias se posiciona como a “única igreja verdadeira e viva” na face da Terra, com a autoridade restaurada de Deus, o que a coloca em contraste direto com a visão evangélica da Igreja universal de Cristo presente em diversas denominações.

Debate Simulado: Mórmon vs Pastor

Missionário Mórmon (MM): Boa noite a todos! É uma grande alegria poder conversar sobre nossa fé. Nós, membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cremos que Deus amou tanto a humanidade que, após uma grande apostasia onde a plenitude do evangelho foi perdida, Ele restaurou Sua Igreja verdadeira através do profeta Joseph Smith. Temos escrituras adicionais, como o Livro de Mórmon, que servem como outra testemunha de Jesus Cristo, confirmando e esclarecendo a Bíblia e oferecendo um caminho para a exaltação e a vida familiar eterna com nosso Pai Celestial.

Pastor Evangélico (PE): Boa noite! É um prazer dialogar. Para nós, evangélicos, a Bíblia é a única, infalível e suficiente Palavra de Deus, a autoridade final para toda fé e prática. A ideia de uma “Grande Apostasia” onde a Igreja verdadeira foi perdida e precisou ser restaurada por um novo profeta é uma contradição direta da promessa de Jesus de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). A Igreja de Cristo, imperfeita em seus membros, nunca perdeu o evangelho. Nossa salvação é exclusivamente pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo, o Deus encarnado, que morreu e ressuscitou, e não por obras adicionais ou ritos de templo.


Missionário Mórmon (MM): Pastor, a Bíblia é maravilhosa, mas ela foi traduzida e nem sempre está “corretamente” interpretada. Precisamos de revelação contínua para entender a plenitude do evangelho, e é por isso que temos o Livro de Mórmon e Doutrina e Convênios. Esses livros não contradizem a Bíblia, mas a complementam e trazem mais clareza. Eles revelam que Deus Pai tem um corpo de carne e ossos (D&C 130:22), e que nós somos Seus filhos espirituais, com o potencial de progredir e nos tornarmos como Ele é. Esse é o caminho da exaltação, onde as famílias podem ser eternas.

Pastor Evangélico (PE): O problema de se adicionar novas escrituras é que isso mina a suficiência da Bíblia. Se a Bíblia não é completa, então a palavra de Deus é sempre provisória. O conceito de Deus com um corpo de carne e ossos, e a ideia de que o ser humano pode se tornar um “deus” é radicalmente diferente do que a Bíblia revela. A Bíblia ensina que Deus é Espírito (João 4:24), transcendente e incorpóreo. Ele é o Criador incriado, e não alguém que progrediu. Se Deus Pai foi um homem, então quem criou esse homem? E o que Ele adorava? Isso leva a um regresso infinito e a um conceito de Deus que compromete Sua singularidade e supremacia.


Missionário Mórmon (MM): Nosso Deus é um Pai amoroso que deseja que Seus filhos se tornem como Ele. Isso é progresso eterno, e não significa que deixamos de adorá-Lo. Jesus Cristo é o Salvador, o Filho de Deus, que realizou a Expiação. Graças a Ele, todos ressuscitaremos e seremos salvos da morte. A exaltação, sim, exige obediência, convênios e as ordenanças do templo, como o batismo por imersão para os vivos e até mesmo batismo por procuração para os mortos, oferecendo a eles a oportunidade de aceitar o evangelho no mundo espiritual.

Pastor Evangélico (PE): A Bíblia é clara que “aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27). Não há segunda chance após a morte, nem “batismo pelos mortos”. A salvação é inteiramente pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo, e o sacrifício dEle na cruz foi completo e suficiente. É uma dádiva que recebemos, e não um processo contínuo de méritos ou ordenanças para nos tornarmos “deuses”. Se dependesse do que “podemos fazer” ou de ritos pós-morte, a segurança da salvação seria impossível, e a obra de Cristo seria diminuída.


Missionário Mórmon (MM): Nossos templos são lugares sagrados onde convênios são feitos com Deus para garantir que as famílias possam estar juntas para toda a eternidade. A importância da família é central no plano de Deus. É lá que realizamos as ordenanças essenciais que ligam as famílias pelos laços do sacerdócio. Essa doutrina da família eterna é uma das maiores bênçãos da nossa fé, oferecendo esperança e propósito que muitas igrejas não conseguem oferecer.

Pastor Evangélico (PE): A Bíblia exalta a família, mas ensina que a união no céu se dá através da nossa relação com Cristo, não através de ritos específicos do templo ou laços consanguíneos que se estendem para a eternidade da mesma forma que na Terra (Mateus 22:30). A adoração e a comunhão com Deus não dependem de um templo físico, pois Cristo, o Sumo Sacerdote, abriu o caminho para que tenhamos acesso direto ao Pai. A “restauração” que afirmam, com novas escrituras e doutrinas sobre a natureza de Deus, a divindade de Cristo e a salvação, cria uma fé que se distancia fundamentalmente do cristianismo histórico e apostólico.