s Irmãs Fox são figuras centrais na história do Espiritualismo Moderno, que, por sua vez, é um movimento que antecede e influenciou a codificação do Espiritismo por Allan Kardec. Embora Kardec não tenha tido contato direto com as irmãs Fox, os fenômenos que elas protagonizaram nos Estados Unidos foram um marco crucial que despertou o interesse de muitas pessoas, incluindo o próprio Kardec, para a possibilidade da comunicação com os espíritos.
Aqui está o que você precisa saber sobre as Irmãs Fox e sua conexão com o Espiritismo:
As irmãs eram:
Leah Fox (1814-1890) – A mais velha, que posteriormente gerenciou a carreira mediúnica das irmãs mais novas.
Margaret “Maggie” Fox (1833-1893)
Katherine “Kate” Fox (1837-1892)
Elas eram filhas de John e Margaret Fox e viviam em uma pequena casa em Hydesville, Nova Iorque, EUA.
O que tornou as Irmãs Fox famosas começou em 31 de março de 1848, na casa de sua família em Hydesville. A família Fox, que era metodista, relatou ter ouvido batidas e ruídos inexplicáveis na casa. Inicialmente, atribuíram os sons a um fantasma ou a algum tipo de perturbação.
A filha mais nova, Kate, de 11 anos, desafiou a inteligência por trás dos sons: ela bateu palmas e pediu que o som imitasse suas batidas. Para espanto de todos, as batidas foram repetidas. Sua irmã Margaret, de 14 anos, então, propôs um código de comunicação, associando batidas a letras do alfabeto.
Através desse método, as irmãs alegaram ter se comunicado com o espírito de um mascate chamado Charles B. Rosma, que supostamente havia sido assassinado e enterrado na adega da casa anos antes. Embora as escavações iniciais não tenham encontrado o corpo, relatórios posteriores (muito depois da confissão de fraude) afirmaram ter encontrado restos humanos no local.
O “fenômeno de Hydesville” rapidamente ganhou notoriedade. Milhares de pessoas visitaram a casa das Fox e participaram de sessões onde as irmãs alegavam se comunicar com os mortos através de batidas ou “raps”. As irmãs Kate e Maggie, sob a gestão da irmã Leah, tornaram-se médiuns profissionais e viajaram pelos Estados Unidos e Europa, realizando demonstrações públicas.
Esses fenômenos de comunicação com os mortos por meio de batidas, movimentos de objetos (como mesas girantes) e outras manifestações físicas, popularmente chamados de “Espiritualismo” (ou “Modern Spiritualism”), espalharam-se rapidamente, despertando um grande interesse em todo o mundo ocidental pela vida após a morte e a possibilidade de contato com os espíritos.
Allan Kardec estava na França quando os fenômenos das Irmãs Fox se tornaram proeminentes nos EUA. Ele não teve contato direto com elas, mas os relatos e a popularidade desses eventos no cenário internacional o instigaram a investigar os fenômenos mediúnicos de forma mais sistemática e científica.
Kardec, com sua formação de educador e filósofo, não estava interessado apenas nos fenômenos em si, mas em extrair deles uma doutrina coesa. Ele começou a coletar e organizar as mensagens que eram recebidas por diversos médiuns em Paris e em outras partes da Europa.
As Irmãs Fox são consideradas as pioneiras do Espiritualismo Moderno nos Estados Unidos, e seu caso foi o “ponto de partida” que gerou o interesse e a curiosidade que levaram à investigação e sistematização posterior de Kardec. Ou seja, elas não fundaram o Espiritismo de Kardec, mas os fenômenos que elas iniciaram foram a catalisador que levou à sua codificação. Kardec reconheceu a importância desses fenômenos americanos como o “prelúdio” ou o “sinal” da Terceira Revelação.
O Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, apresenta um sistema de crenças e práticas que, embora se autodenomine uma doutrina cristã e use a Bíblia como uma de suas referências, diverge fundamentalmente do cristianismo evangélico em pontos cruciais. A principal razão pela qual o movimento evangélico classifica o espiritismo como uma “seita” (no sentido teológico de um desvio das verdades fundamentais do cristianismo ortodoxo) reside em suas doutrinas sobre a natureza de Deus e de Jesus Cristo, a salvação, a autoridade da Bíblia, a comunicação com os mortos, a reencarnação e o juízo final.
O Espiritismo moderno tem seu marco inicial na França, com Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec. Kardec era um educador, filósofo e pesquisador, que inicialmente se interessou pelos fenômenos de mesas girantes e manifestações mediúnicas que se tornaram populares na Europa e nos Estados Unidos em meados do século XIX.
Intrigado e buscando uma explicação racional para esses fenômenos, Kardec começou a sistematizar as mensagens recebidas através de diferentes médiuns. Ele não se considerava o “criador” do espiritismo, mas sim seu “codificador”, pois alegava que os princípios da doutrina eram ditados por espíritos superiores.
1857: Kardec publica “O Livro dos Espíritos”, considerado a obra fundamental do espiritismo. Este livro apresenta os princípios da doutrina em forma de perguntas e respostas, supostamente ditadas por espíritos.
1858: Allan Kardec funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e lança a “Revista Espírita”.
Décadas seguintes: Publica outras obras importantes que completam a codificação espírita: “O Livro dos Médiuns” (1861), “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (1864), “O Céu e o Inferno” (1865) e “A Gênese” (1868).
A doutrina espírita se espalhou por vários países, com forte adesão no Brasil.
Para a perspectiva evangélica, diversas doutrinas espíritas representam um desvio fundamental das verdades bíblicas:
A Natureza de Deus:
Visão Espírita: Deus é o criador de todas as coisas, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom. Embora não neguem a unidade de Deus, o espiritismo rejeita a doutrina da Trindade, considerando-a uma invenção humana e um conceito complexo e desnecessário.
Visão Evangélica: Acreditam na Trindade: um só Deus em três Pessoas co-iguais e co-eternas (Pai, Filho e Espírito Santo). A negação da Trindade é vista como um erro teológico fundamental, pois compromete a plena divindade de Jesus Cristo e do Espírito Santo.
A Natureza e Identidade de Jesus Cristo:
Visão Espírita: Jesus é considerado o Espírito mais puro e perfeito que já encarnou na Terra, um modelo de moralidade, um guia e um exemplo a ser seguido. Ele é um espírito evoluído, mas não é Deus em essência, nem a segunda pessoa de uma Trindade. Sua morte na cruz não é vista como um sacrifício expiatório pelos pecados, mas como um martírio que sela Seus ensinamentos.
Visão Evangélica: Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, a segunda Pessoa da Trindade. Sua morte na cruz é o sacrifício expiatório e vicário que redime a humanidade de seus pecados, e Sua ressurreição corporal é a garantia da vida eterna. A negação de Sua divindade e do caráter expiatório de Sua morte é uma das maiores divergências.
A Salvação:
Visão Espírita: A salvação (ou progresso espiritual) é alcançada através da evolução moral e intelectual do espírito ao longo de múltiplas encarnações. As boas obras, o aprendizado e a retificação de erros passados são essenciais. Não há um “céu” ou “inferno” permanentes como destinos finais, mas sim estados vibracionais e níveis de evolução espiritual.
Visão Evangélica: A salvação é um dom da graça de Deus, recebida pela fé em Jesus Cristo, sem o mérito das obras humanas (Efésios 2:8-9). As boas obras são um resultado da salvação, e não um meio para alcançá-la. O sacrifício de Jesus na cruz é suficiente para o perdão dos pecados. O destino final é o céu (para os salvos) ou o inferno (para os perdidos), ambos locais e estados de existência permanentes.
Autoridade da Bíblia e Outras Revelações:
Visão Espírita: A Bíblia é vista como um livro sagrado, contendo verdades importantes, mas não como a Palavra infalível de Deus ou a autoridade final e suficiente. Ela é interpretada à luz da razão e das comunicações mediúnicas. Os escritos de Allan Kardec e outras comunicações espíritas são considerados uma “nova revelação” ou “terceira revelação” (após Moisés e Jesus), que esclarece e complementa os ensinamentos cristãos.
Visão Evangélica: A Sola Scriptura é um pilar: a Bíblia (66 livros) é a única Palavra de Deus inspirada, inerrante, infalível e suficiente para toda a fé e prática. Qualquer “nova revelação” que contradiga ou se adicione à Bíblia é rejeitada.
Comunicação com os Mortos (Mediunidade):
Visão Espírita: Acreditam na possibilidade e na importância da comunicação entre os vivos e os espíritos dos mortos (e outros espíritos) através de médiuns. A mediunidade é vista como um dom natural e uma ferramenta para o progresso moral e a obtenção de conhecimento.
Visão Evangélica: A Bíblia proíbe expressamente a comunicação com os mortos e a necromancia (Deuteronômio 18:10-12; Isaías 8:19). Tais práticas são consideradas abominações a Deus e atribui-se a manifestação de “espíritos” a engano de demônios disfarçados.
Reencarnação:
Visão Espírita: Acreditam na reencarnação como o processo pelo qual o espírito evolui, voltando a encarnar em diferentes corpos para aprender lições e reparar erros de vidas passadas. A reencarnação é vista como justa e necessária para o progresso moral.
Visão Evangélica: A Bíblia ensina que “aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27). A reencarnação é categoricamente rejeitada. A salvação e a oportunidade de arrependimento são concedidas nesta vida terrena, única.
Natureza da Alma e Inferno:
Visão Espírita: A alma (espírito) é imortal e passa por um ciclo de reencarnações. Não existe um inferno de tormento eterno. Os espíritos que agem mal sofrem as consequências de suas ações em seus próprios estados de consciência ou em encarnações futuras, mas com a oportunidade de redenção e progresso.
Visão Evangélica: A alma é imortal. Após a morte, os salvos vão para o céu e os perdidos para o inferno, um lugar de tormento consciente e eterno (Mateus 25:46; Apocalipse 20:10-15). A ideia de um sofrimento temporário ou de oportunidades ilimitadas de evolução é rejeitada.
Evangélico: Boa noite a todos! Agradeço a oportunidade de discutir temas tão cruciais para a nossa fé e entendimento da realidade. Para nós, evangélicos, a Bíblia é a Palavra infalível de Deus e a única autoridade para a fé e a vida. Nela, encontramos a verdade sobre Deus, sobre nós mesmos e sobre a salvação. Nossa fé se baseia em um Deus triúno, no Senhor Jesus Cristo como o Deus encarnado que morreu por nossos pecados e ressuscitou, e na salvação pela graça, mediante a fé, sem obras. É por meio de Cristo que temos um acesso direto e pleno ao Pai.
Espírita: Boa noite! É um prazer e uma honra participar deste diálogo. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec, não nega a Jesus Cristo, mas o reconhece como o Espírito mais puro e evoluído que já encarnou na Terra, um modelo de moralidade e amor. Para nós, Deus é a inteligência suprema do universo, Pai de toda a criação, e a Bíblia é um livro sagrado que deve ser interpretado à luz da razão e das revelações dos espíritos. Cremos que a vida continua após a morte e que evoluímos através da reencarnação, buscando aprimoramento moral e intelectual.
Evangélico: Pastor: Reconhecer Jesus como um “espírito evoluído” e um “modelo” é fundamentalmente diferente de reconhecê-Lo como o Deus encarnado, o Criador que se fez carne. João 1:1 e 14 é inequívoco: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” Se Jesus é apenas um espírito evoluído, como ele poderia ser o sacrifício perfeito que expia nossos pecados? Logicamente, um ser criado, por mais evoluído que seja, não tem o atributo da infinitude para pagar uma dívida infinita que a humanidade, em sua finitude, acumulou contra um Deus infinito. A pena pelo pecado contra um Deus eterno deve ser paga por um ser eterno.
Espírita: A ideia de um Deus que exige um sacrifício de sangue para perdoar pecados é, para nós, uma concepção primitiva e contrária à justiça e bondade divina. Se Deus é amor e infinitamente bom, por que Ele precisaria da morte de Seu Filho para nos perdoar? A reparação do erro deve vir do próprio indivíduo. A reencarnação, por outro lado, oferece uma solução ética e justa para a evolução. É logicamente mais coerente que um espírito, ao cometer erros, tenha múltiplas oportunidades para corrigi-los, aprender e progredir, em vez de ser condenado eternamente após uma única existência imperfeita.
Evangélico: Essa é uma falácia comum, a de que a justiça de Deus seria “primitiva”. A justiça divina é uma expressão da Sua santidade, que não pode tolerar o pecado. A dívida não é apenas um “erro” a ser corrigido por mérito próprio, mas uma ofensa contra a lei moral perfeita de um Deus santo. Se Deus simplesmente “perdoasse” sem um preço, Ele seria injusto, e a moralidade seria arbitrária. A cruz é a demonstração máxima da justiça E do amor de Deus: Seu amor providenciou o sacrifício, e Sua justiça exigiu o pagamento. Filosóficamente, se o pecado é uma transgressão contra um ser infinito (Deus), as consequências devem ser proporcionais à dignidade do ofendido, e somente um ser infinito (Jesus, o Deus-homem) poderia arcar com essa proporção. A reencarnação, por sua vez, levanta um problema ético: se a alma não se lembra das vidas passadas, como pode haver aprendizado e reparação de erros dos quais não há consciência? Isso anula a responsabilidade moral.
Espírita: A falta de lembrança das vidas passadas serve justamente para que possamos progredir sem o peso excessivo dos erros anteriores, focando no presente e no aprimoramento. A consciência dos erros se manifesta nas tendências e provas que enfrentamos nesta vida. A ideia de inferno eterno e punição sem fim é moralmente problemática; um Deus de amor não submeteria suas criaturas a um sofrimento sem propósito e sem fim. A reencarnação oferece a oportunidade de expiação e progresso contínuo, o que é infinitamente mais misericordioso e justo do que uma condenação eterna. Além disso, a Bíblia é passível de interpretações e está sujeita a anacronismos; a revelação continua através dos espíritos para esclarecer as verdades divinas.
Evangélico: O problema com a reencarnação não é apenas a falta de memória, mas a ausência de um juízo final objetivo. Se há sempre uma nova chance, a justiça divina se torna indefinida, e a urgência do arrependimento é diluída. A Bíblia é clara: “Aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27). Esta é a única oportunidade de escolher a Cristo. E a ideia de “novas revelações” através de médiuns contradiz a suficiência da Palavra de Deus. Se a Bíblia não é a autoridade final, a verdade se torna subjetiva e sempre mutável, dependendo da suposta “nova mensagem” que um médium possa trazer. Essa postura abre a porta para o engano, pois, como saberíamos quais espíritos são “superiores” ou verdadeiros? A Bíblia nos adverte severamente contra a comunicação com os mortos (Deuteronômio 18:10-12) e a consultar espíritos, o que sugere um perigo real e não um caminho para a verdade. Logicamente, se a fonte é incerta, a doutrina é instável.
Espírita: As revelações dos espíritos são testadas pela razão e pela sua consonância com a moral de Cristo. Não aceitamos tudo cegamente. A mediunidade é um dom natural, e a história bíblica tem exemplos de manifestações mediúnicas, como a de Samuel com a médium de En-Dor (1 Samuel 28), mostrando que a comunicação é possível. Nossa busca é por conhecimento e evolução moral, não por dogmas imutáveis. O Espiritismo oferece uma visão racional e consoladora da vida, da morte e do futuro, compatível com a ciência e a filosofia. Nosso foco é a caridade e a busca constante pela evolução.
Evangélico: Essa é uma interpretação forçada de 1 Samuel 28, que é geralmente entendida como um ato de necromancia condenável, onde a aparência de Samuel foi permitida por Deus para entregar uma mensagem de juízo a Saul, e não como uma aprovação da prática mediúnica. A própria Bíblia condena tais práticas como “abominação” a Deus. A tentativa de conciliar com a ciência e a filosofia não pode subverter a verdade revelada. A lógica cristã aponta para um criador que se revelou plenamente em Cristo e em Sua Palavra. A salvação é um ato definitivo de Deus, não um processo de autoaperfeiçoamento sem fim. Concluindo: o cerne do cristianismo é um Deus santo que nos salvou pela graça, através da fé no sacrifício perfeito de Seu Filho, e que nos oferece uma vida eterna com Ele, e não um ciclo interminável de reencarnações e buscas por médiuns para guiar a fé.