






O uso de imagens religiosas e a forma como são veneradas é um dos pontos de discórdia mais visíveis e debatidos entre a Igreja Católica e as denominações protestantes. Enquanto os católicos veem nas imagens um auxílio legítimo para a devoção e um caminho para a santidade, os protestantes frequentemente as consideram uma violação direta dos mandamentos bíblicos contra a idolatria.
A Igreja Católica distingue claramente entre adoração (latria), que é devida somente a Deus, e veneração (dulia ou hyperdulia para Maria), que é honra e respeito dados a santos, relíquias e, por extensão, às suas imagens. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) aborda o tema:
Imagens como Sinais e Símbolos: Para os católicos, as imagens (estátuas, ícones, pinturas) não são adoradas em si mesmas, mas servem como sinais visíveis que apontam para a realidade invisível que representam. Uma imagem de Cristo, por exemplo, não é o próprio Cristo, mas remete a Ele, ajudando o fiel a concentrar sua mente e coração na pessoa de Jesus.
Encarnação como Justificativa: A base teológica para o uso de imagens de Cristo e dos santos reside na Encarnação do Verbo de Deus. Se Deus se fez carne e se tornou visível em Jesus Cristo, então é lícito e até mesmo natural representá-Lo e, por extensão, aqueles que foram santificados por Ele. O Concílio de Niceia II (787 d.C.), que lidou com a crise iconoclasta, defendeu o uso de imagens com base na doutrina da Encarnação.
Homenagem Direcionada ao Protótipo: A veneração prestada à imagem é entendida como sendo dirigida à pessoa que a imagem representa, e não à imagem em si. É como beijar uma foto de um ente querido: o afeto não é pelo papel, mas pela pessoa retratada. O CIC afirma: “A honra prestada a uma imagem pertence àquele que ela representa” (CIC 2132).
Auxílio à Piedade: As imagens são consideradas um auxílio valioso para a oração e a meditação. Elas podem inspirar sentimentos religiosos, recordar histórias bíblicas ou vidas de santos, e ajudar os fiéis a se sentirem mais próximos do divino.
A maioria das denominações protestantes, especialmente aquelas de tradição reformada (calvinista) e evangélica, têm uma postura rigorosa contra o uso de imagens no culto e na devoção pessoal, fundamentando sua posição principalmente nos mandamentos bíblicos.
Os Dez Mandamentos: A principal objeção protestante vem do Segundo Mandamento (ou a primeira parte do Primeiro Mandamento, dependendo da numeração):
Êxodo 20:4-5 (Dez Mandamentos): “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas á águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso…”
Deuteronômio 4:15-16: “Guardai-vos, pois, muito a vossa alma, porque nunca vistes figura alguma no dia em que o Senhor falou convosco em Horebe, do meio do fogo; para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura…” Os protestantes interpretam esses versículos como uma proibição absoluta de fazer e se curvar a qualquer tipo de imagem religiosa, independentemente da intenção. A distinção católica entre adoração e veneração é vista como uma distinção artificial que, na prática, leva à idolatria.
Natureza Invisível de Deus: A Bíblia enfatiza que Deus é Espírito (João 4:24) e que Ele não pode ser contido ou representado por formas materiais. Fazer uma imagem de Deus é tentar limitar o ilimitado e desonrar Sua natureza transcendente.
Isaías 40:18: “A quem, pois, fareis semelhante a Deus? Ou com que semelhança o comparareis?”
Idolatria e Superstição: A história de Israel, marcada por constantes quedas na idolatria (como o bezerro de ouro em Êxodo 32), serve como um forte alerta. Os protestantes argumentam que a presença de imagens no culto facilmente desvia a atenção do fiel de Deus para o objeto, levando à superstição e à crença errônea de que o poder reside na imagem em si.
Cristo como Mediador Único: A devoção a imagens de santos (ou mesmo de Maria) é vista como um desvio da suficiência de Cristo como o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5). A oração e a adoração devem ser direcionadas diretamente a Deus através de Jesus.
Ausência na Igreja Primitiva: Muitos protestantes argumentam que a Igreja Primitiva não utilizava imagens da forma como o catolicismo o faz hoje, e que essa prática se desenvolveu mais tarde, influenciada por culturas pagãs.
A controvérsia sobre o uso e a veneração de imagens é um ponto de tensão persistente entre católicos e protestantes. Para os católicos, as imagens são valiosos recursos pedagógicos e espirituais que ajudam a elevar a mente a Deus e aos santos, sempre com a ressalva de que a adoração é devida somente a Deus. Para os protestantes, a proibição bíblica é clara e abrangente, vendo no uso de imagens um risco inerente de idolatria e uma diminuição da glória do Deus invisível, que deve ser adorado em espírito e em verdade.
Padre: Boa noite a todos! Gostaria de esclarecer a posição da Igreja Católica sobre o uso de imagens. Frequentemente, somos acusados de idolatria, mas essa é uma compreensão equivocada. Nós não adoramos imagens. A adoração (latria) é reservada unicamente a Deus. As imagens de Cristo, da Virgem Maria e dos Santos são para nós sinais visíveis que nos remetem à realidade invisível. Elas servem como um auxílio para a oração e a veneração, direcionando nossa mente e nosso coração à pessoa que representam, e não ao objeto em si. Lembremos que Deus se fez visível em Jesus Cristo pela Encarnação; portanto, representá-Lo e Seus santos é natural.
Pastor: Boa noite, Padre, e aos ouvintes. Entendo a distinção que a Igreja Católica faz, mas a Bíblia é cristalina em suas proibições. O Segundo Mandamento em Êxodo 20:4-5 não deixa margem para interpretações: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás”. A Palavra de Deus proíbe não apenas a adoração, mas também a confecção de imagens para fins religiosos e o ato de se curvar diante delas. A história de Israel está repleta de advertências contra a idolatria, e a distinção entre adoração e veneração, na prática, muitas vezes se dilui.
Padre: Pastor, é preciso ler o mandamento em seu contexto. A proibição visava as imagens de deuses pagãos, que eram adorados como divindades em si mesmas. O próprio Deus ordenou a confecção de imagens para o culto em outras passagens bíblicas, como os querubins na Arca da Aliança (Êxodo 25:18-22) e a serpente de bronze no deserto (Números 21:8-9), que curava aqueles que a olhavam. Isso mostra que nem toda imagem é proibida, mas sim a imagem que leva à idolatria. Nossas imagens são catequéticas e devocionais, elevando a alma a Deus.
Pastor: Com todo respeito, Padre, os exemplos que você citou são exceções específicas, dadas por ordem direta de Deus para propósitos muito particulares, e não uma permissão geral para fazer e venerar imagens. Os querubins na Arca não eram adorados, e a serpente de bronze, embora tivesse um propósito inicial, foi mais tarde destruída por Ezequias porque o povo começou a idolatrá-la (2 Reis 18:4). Isso demonstra o perigo inerente das imagens. Deus é Espírito e não pode ser limitado ou representado por formas materiais (Isaías 40:18). A verdadeira devoção é em espírito e em verdade, sem intermediários visuais que possam desviar o foco de Cristo.
Padre: A distinção é fundamental, Pastor. Quando beijo a foto da minha mãe, não estou adorando o papel, mas expressando meu amor por ela. Da mesma forma, quando um fiel beija uma imagem de Maria ou de um santo, está honrando a pessoa celestial que ela representa, pedindo sua intercessão ou expressando devoção. A honra prestada à imagem pertence àquele que ela representa, como ensinou o Concílio de Niceia II. As imagens são um auxílio visual que nos ajuda a meditar sobre a vida de Cristo e dos santos, que são exemplos de fé e intercessores junto a Deus. Elas são a Bíblia dos iletrados.
Pastor: Padre, o problema não está em beijar uma foto da mãe, pois essa não é uma prática de culto religioso. O perigo surge quando objetos físicos se tornam foco de veneração religiosa. Muitos fiéis, na prática, atribuem poder às imagens, e isso se torna idolatria, mesmo que a intenção original fosse outra. A Bíblia ensina que há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo (1 Timóteo 2:5). Não precisamos de imagens ou santos para interceder por nós. Nossa oração deve ser dirigida diretamente a Deus, através de Jesus, em um relacionamento pessoal e direto, sem a mediação de elementos visíveis.