Um dos maiores pontos de divergência entre católicos e evangélicos é a fonte de autoridade final da fé. Enquanto os evangélicos sustentam a doutrina da Sola Scriptura — isto é, somente a Escritura como regra de fé e prática —, a Igreja Católica afirma que a Tradição Sagrada e o Magistério (autoridade dos concílios e do Papa) têm peso igual à Bíblia na condução da fé cristã.
Mas afinal, quem tem a palavra final: a Bíblia ou a Tradição da Igreja ?
Para compreender melhor esse conflito de ideias, vamos simular um diálogo respeitoso entre um padre e um pastor.
TRADIÇÃO:
É o conjunto de ensinamentos não escritos na Bíblia , mas transmitidos oralmente pelos apóstolos e preservados ao longo dos séculos pela Igreja. Envolver práticas litúrgicas, interpretações doutrinárias e a compreensão contínua da fé cristã. Para os católicos, a Tradição é tão autoritativa quanto a Escritura , pois ambos os provém de Cristo e dos apóstolos.
Exemplo: A doutrina da Assunção de Maria não está explicitamente na Bíblia, mas é aceita com base na Tradição.
MAGISTÉRIO:
É a autoridade oficial de ensino da Igreja, exercida pelo Papa e pelos bispos em comunhão com ele. O Magistério interpreta autenticamente tanto a Escritura quanto a Tradição, e é considerado infalível em questões de fé e moral quando ensina solenemente (ex: Concílios ou pronunciamentos papais ex cathedra).
Padre Antônio (católico):
A Igreja não nega a importância da Bíblia. Pelo contrário, foi a própria Igreja quem define o cânon das Escrituras. Contudo, também recebemos de Cristo a Tradição oral , passada pelos apóstolos (cf. 2Ts 2,15), e a autoridade de ensinar, dada por Jesus à Igreja (cf. Mt 16,18-19). A Tradição e o Magistério são como as lentes que nos permitem interpretar corretamente a Escritura.
Pastor Daniel (evangélico):
Entendo sua posição, padre Antônio, mas a Bíblia jamais coloca tradição humana no mesmo nível da Palavra de Deus. Em Marcos 7:8-13, Jesus confronta os fariseus exatamente por anularem o mandamento de Deus por causa da tradição. A Sola Scriptura afirma que somente a Escritura é inspirada por Deus (2Tm 3:16-17) e suficiente para guiar o cristão em tudo o que diz respeito à fé e à salvação.
Padre Antônio:
Mas e quanto à multiplicidade de interpretações que surgiram com a Reforma? Sem o Magistério da Igreja, não há uma voz final para interpretar a Escritura. A própria Bíblia diz que “nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular” (2Pe 1:20).
Pastor Daniel:
Esse texto está falando sobre a origem divina da profecia , não sobre quem pode interpretá-la. Aliás, a Escritura sempre foi lida e aplicada pela comunidade, sob o ensino dos apóstolos e profetas, não de um só homem. O Espírito Santo guia o povo de Deus a toda a verdade (Jo 16:13). A autoridade final não é de uma instituição, mas da própria Palavra de Deus.
Padre Antônio:
Mas como saber quais livros são Escritura? Foi a Igreja quem decidiu isso no século IV, e até os mesmos reformadores aceitaram esse cânon.
Pastor Daniel:
Deus usou a Igreja, sim, como instrumento histórico para refletir os livros inspirados — mas isso é diferente de autoridade concedida à Bíblia. A Escritura é Palavra de Deus por si mesma, não porque a Igreja a declarou assim. A Igreja está submissa à Palavra, e não acima dela.